
- “(…) O vizinho da casa 12 comprou um barco novo… O Tiago está ficando bom da cirurgia, está engessado, mas já foi a praia… Sexta-feira deram uma festa imensa na casa 14, foi um tumulto danado… Nasceram os filhotinhos da cachorra da Lili… Ah! E o casal da casa 10 brigou novamente – foi um escândalo. Ela foi embora de carro no meio da noite….Disseram que dessa vez eles separam… “
- “Nossa Senhora! – minha filha comentou – Você está parecendo a Revista Caras de Angra! Só contou fofoca!”
- “Ué! Estou contando coisas que podem te interessar! Você quer saber das minhas pescarias? Do meu jogo de volei? Dos meus passeios de bicicleta? Falei dos vizinhos que você conhece, ora!”
Estávamos almoçando e meu filho (18 anos) contava para mim e para minha filha (22 anos) as novidades da semana que ele passou em Angra dos Reis com o pai.
- “Seu irmão tem razão, meu amor… Ele está editando o que aconteceu nesta semana em Angra e te contando o que pode (te) interessar…” – Interferi rindo e encerrando a discussão. – Já pensou que chatice se ele começar a contar daquelas pescarias sem fim?” – concluí.
Então, neste episódio interessante, a ficha caiu : nós editamos nossas conversas em função do interesse do outro! E do nosso também, é claro. Podemos ter vários relatos – verdadeiros – de uma mesma viagem. Afinal, é impossível reportar 24 horas de um dia. É impossível reportar tudo que acontece. E assim, mesmo sem perceber, inocentemente ou não, selecionamos os fatos mais relevantes para nosso interlocutor, seja ele quem for – fatos que ele quer saber, fatos que ele precisa saber -, e relatamos. Isso é até intuitivo, e fundamental.
Mas esse preâmbulo todo é para iniciar meu assunto: “Os Desafios da imprensa”. Questão complexa, desafio para mim também, até porque eu sou leiga no assunto – para o bem ou para o mal, afinal, se por um lado minha credibilidade neste tema é discutível – não vivo neste cotidiano – minha isenção é considerável, pois, a principio, o assunto me é indiferente, que interesse tenho nisso? Em tese, nenhum, fora curiosidade. Mas tenho minha opinião, é claro. E portanto, também não tenho isenção absoluta.
Depois de dias de leituras aleatórias e “googladas” direcionadas, entendi que isenção e, consequentemente, credibilidade é o maior valor da imprensa. Seja no hora de editar o que importa, no momento do relato com mais ênfase ou não, na conferencia da informação, na busca de outros pontos de vista, na organização e sequência da narrativa e da explicitação do que é fato e do que é opinião, credibilidade é fundamental. Indiscutivelmente, confiança é tudo, seja em empresas, governo, ou pessoas, é claro. E sempre.
Conforme o jornalista Eugenio Bucci cita em seu excelente artigo, aqui, “(…) O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pautará pela abertura às mais variadas opiniões sobre os fatos, pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação. (…)”.
Conforme o jornalista americano Gay Talese conta em sua entrevista a Revista Veja aqui, “(…) A imprensa americana caiu na lorota de que havia armas de destruição em massa no Iraque por algumas razões. Primeira: os atentados de 11 de setembro criaram um clima de espanto. Uma coisa é falar de guerra lá longe, na Normandia, no norte da África, falar do general Erwin Rommel, de Mussolini, Hitler. Outra é sofrer hostilidades de forças estrangeiras dentro de Nova York. Era inacreditável, e George W. Bush capitalizou isso. Ganhou enorme poder. Era o nosso defensor contra futuros ataques e o árbitro sobre o que era bom para nós. Fomos induzidos a acreditar que o governo tinha informações que nem o público nem o Congresso conheciam. A imprensa, muito crédula e um pouco ingênua, entrou no clima. Segunda razão: havia um fervor patriótico. A imprensa se sustenta com publicidade, e o pessoal tinha receio de ser percebido como antipatriótico – o que naqueles dias era o mesmo que ser anti-Bush – e acabar financeiramente punido, com os anunciantes debandando. O comediante Bill Maher fez uma brincadeira em seu programa na rede ABC, dizendo que os terroristas podiam ser chamados de tudo, menos de covardes, e foi retirado do ar. Essa atmosfera durou uns dois anos. Terceira: os jornais, Washington Post, The New York Times,efetivamente acreditavam no governo, e, por último, os repórteres que cobriam Washington eram muito diferentes dos repórteres do meu tempo, que cobriram a Guerra do Vietnã nos anos 60. Não eram céticos.(…)”
Imprensa é imprensa, e tanto lá como cá, em maior ou menor grau, ambas dependem da publicidade, sofrem influência e manipulação do governo e das assessorias de imprensa (*), pesam interesses próprios indiscutíveis e ainda enfrentam o desafio da web, e consequente perda do monopólio da informação em escala e da difícil apuração e divulgação dos fatos em tempo real.
Sem dúvida, para a boa imprensa, para o jornalismo de primeira, desafios não faltam.
Enfim, alguns aqui já conhecem o meu estilo, não é? Pois é, esses desafios – espinhosos – serão desdobrados nos próximos posts. Suavemente.
Até!
(*) Vide P.S. 2 no meu post anterior “Jornalismo pontual… e de primeira”, aqui
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