
Domingo, dia 18 de fevereiro, lendo a excelente entrevista de Armínio Fraga ao jornal O Globo cujo título era ” Recessão nos EUA será ’suave e prolongada’, me chamou a atenção a afirmativa dele sobre a gangorra dos mercados: “Hoje o medo está suplantando a ganância”.
Bem, ganância é ganância e, de forma geral, tenho lá minhas dúvidas sobre isso – nem sei se concordo ou não. Vejo tanta ganância (*)… Mas em se tratando de mercado financeiro, investimentos a curto prazo, capital especulativo… bem, quem sou eu para discordar dele? Se até o Bauman concorda….
“Que computador foi danificado pelo sinistro ” bug do milênio? Quantas pessoas você conhece que foram vítimas dos ácaros de tapete? Quantos amigos seus morreram da doença da vaca louca? Quantos conhecidos ficaram doentes ou inválidos por causa de alimentos geneticamente modificados?” Esta seqüência de perguntas está no capítulo de abertura do livro do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, Medo Líquido, recém-lançado no Brasil… A elas, ele não dá uma resposta, cumprindo apenas seu papel de provocador. Mas nem precisaria. Esse questionamento faz parte do que ele chama de “a era dos temores”….”Residente em Londres e professor emérito de sociologia das Universidades de Leeds e de Varsóvia, Bauman tem, no Brasil, 13 livros publicados – entre eles, Amor Líquido e Globalização: As Conseqüências Humanas. Grande amarrador de idéias que vagam no ar, ele desenvolveu o conceito de uma sociedade “líquida”, partindo do princípio de que as certezas e a previsibilidade do futuro estão diluídas…”
Para Bauman, um dos sinais de que estamos subjugados pelo medo é a percepção de que “todas as situações que nos ameaçam parecem orientadas por poderes que nos fogem ao controle. “Poder e política, uma dupla que até pouco tempo estava casada dentro das nações-estado, estão desquitados e querem se divorciar. Temos cada vez mais políticos sem poder e poderes sem nenhum controle político”, afirma. ““…não há perspectiva de que esse clima de insegurança seja sanado. “Pelo contrário, os governos e os mercados têm interesse em manter esses medos intactos e, se possível, aumentá-los…”
Resumindo a entrevista que ele concedeu para a jornalista Flávia Tavares, do Estadão, temos: “Governados pelo medo: A sensação de insegurança rege mercados e relações sociais. E ninguém parece ter controle sobre os perigos invisíveis que nos ameaçam. “” O aspecto mais assustador dos medos é que não temos, nem podemos ter, nenhuma certeza se eles são genuínos ou imaginários. Isso leva as pessoas a gastar mais em coisas de que não precisam e as faz apoiar políticos que não se preocupam com seu bem-estar. Não sou economista nem profeta, e seria desonesto de minha parte falar sobre os aspectos técnicos da crise financeira. Aliás, mesmo as pessoas com credenciais para isso estão fazendo previsões falsas, dando conselhos equivocados e sendo surpreendidas. Vivemos agora – como já vivíamos antes desse colapso nas bolsas de valores, do 11 de Setembro ou do Katrina – em um estado de medo permanente e incurável. Medos emanam de absolutamente qualquer coisa: falta de estabilidade no trabalho, constantes mudanças nas regras do jogo da vida, fragilidade nas parcerias, falta de reconhecimento social, ameaças de epidemias, comidas cancerígenas, possibilidade de ser excluído do mercado, ameaças à segurança pessoal nas ruas. Os medos são muitos e diferentes entre si, mas eles alimentam um ao outro, formando um estado de espírito que só pode ser descrito como “insegurança geral”. Nós nos sentimos ameaçados, mas não sabemos exatamente de onde vêm as ansiedades… Os medos estão flutuando no ar. Os especialistas nos dão diagnósticos conflitantes – o que ontem parecia impossível é anunciado como iminente e inescapável hoje. Por isso, estamos sempre “psicologicamente prontos” para um desastre e imaginamos que o mundo seja um contêiner de perigos. E, como disse o grande sociólogo W. I. Thomas há quase um século, se as pessoas acreditam que algo é real, elas vão agir de uma forma que vai tornar aquilo real.”
“…Nos tornamos mais temerosos do que éramos antes porque, anteriormente, o Estado havia encontrado a forma de convencer os cidadãos a ser obedientes: oferecia em troca a promessa de proteção contra as ameaças a sua existência. Não mais tendo condições de cumprir tal promessa, esse Estado acaba por mudar a ênfase da proteção contra os perigos à segurança social para os perigos à segurança pessoal – e, assim, “subsidiar” a batalha contra o medo. Os medos estão agora difusos, espalhados e indefinidos. Isto é o que os torna tão assustadores e de difícil eliminação. Essa característica “líquida” do medo o transforma em capital político e comercial – que os políticos e as empresas estão sempre tentados a reverter em algo lucrativo. O apelo popular de se fazer algo contra as causas desconhecidas das ansiedades e de combater as ameaças invisíveis pode ser distorcido e redirecionado para objetos que não são necessariamente responsáveis pela nossa insegurança, mas são convenientes do ponto de vista político e mercadológico. Essa mudança de foco não cura a ansiedade e, portanto, não diminuirá o suprimento de “capital do medo” – mas servirá para que sejam vendidos produtos relacionados à segurança e, por um breve período, reduzirá a tensão. Quando os medos da população se tornam uma tentação comercial, há poucas chances de eliminá-los pela raiz. Pelo contrário, os governos e os mercados têm interesse em manter os medos intactos e, se possível, aumentá-los…”
(Flávia Tavares) - “O senhor diz, em seu livro Medo Líquido, que a globalização eliminou qualquer possibilidade de segurança, já que a abertura dos mercados e dos países acabou com as proteções. Como se deu esse processo? Países com maior desigualdade social, como o Brasil e outros emergentes, tendem a sentir mais medo? Estamos mais vulneráveis aos perigos nas grandes cidades? Quais as conseqüências disso?” Leia mais aqui.
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Não li o livro ainda, mas só essa entrevista já é bastante instigante – afinal, indiscutivelmente temos, sim, muito medo. Na verdade, vivemos uma época de medo generalizado. Medo da violência, medo do desemprego, medo de doenças, medo de mudanças, medo do outro, medo de falar em público e até medo de perder o tempo! Tudo é motivo para estresses e ansiedades desnecessárias.
Por sorte, eu, particularmente, ainda que seja cuidadosa, não sou das mais medrosas. Já fui, principalmente, quando criança. Mas hoje não admito e costumo enfrentar meus medos – se eles me incomodamos e os considero infundados, é claro. E isso é uma conquista difícil. Alguns deles como, p.ex, o medo de perder, ainda preservo em parte – para bem ou para o mal. :)
Enfim, medo é um sentimento muito forte, pode ser aterrador e até paralisante. O que é desagradável e anti-produtivo. Para mim, a melhor estratégia para enfrentá-lo é a desconstrução desse medo, através da brincadeira, deboche mesmo. Um filme ótimo dentro desse espírito é o ” Jovem Frankenstein” de Mel Brooks, que é considerado uma das melhores comédias do cinema. Foi de lá que tirei o título deste post, mais precisamente neste trecho aqui, hilário. Reparem que em um dado momento, quando o dr. Frankenstein percebe a corcunda do criado Igor e se oferece para operá-lo, ouve a seguinte resposta: “Corcunda? Que corcunda?” Não deixem de ver e divirtam-se com o medo também!:)Então me digam: Será que vivemos mesmo uma “Era de temores”?
(*) P.S.: Coincidentemente, ganância é uma das características principais – e se sobrepuja ao medo – nos personagens dos dois filmes mais premiados pelo Oscar 2008: “Onde os fracos não tem vez” e “Sangue Negro”. Impressionante!
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