
- Aonde você comprou esse vestido? Adorei! Parece um Galliano! – me perguntaram em algum “lounge” no Fashion Rio. Era a terceira vez que eu usava esse vestido da foto. Usei em dezembro, no almoço de final de ano com umas amigas no Gula-Gula; usei na noite de Natal e usei no dia do Fashion Rio. Sempre me elogiam e pedem o endereço da loja…Nem sei porque ele agrada tanto, ou melhor, agora sei: Será que ele parece mesmo um Galliano? Minha filha precisa saber disso – pensei rindo :)
Ah!, mas a moda! E o que é afinal? “É a maneira que o ser humano encontra de manifestar, por meio das roupas e acessórios, que pertence a uma classe social que o diferencia e individualiza”, afirma a historiadora Kathia Castilho, professora de Semiótica da Moda da Universidade Anhembi Morumbi. Já o historiador britânico James Laver, autor de A Concise History of Costume (”Uma história concisa da moda”, sem edição no Brasil), costuma dizer que “moda significa muito mais do que a roupa em si. Funciona como o espelho das mudanças sociais e culturais vividas pela civilização. Acompanha, simboliza e retrata as transformações vividas pelo homem e pela sociedade ao longo dos séculos. Na verdade, mais do que um desfile de tendências, revela uma linguagem não-verbal. Não é assunto exclusivo das elites, pelo contrário. Está muito mais próxima do que se imagina da vida real. No dia-a-dia das ruas, as pessoas identificam-se pela roupa. Conseguem expressar idade, sexo, personalidade, classe social, gostos e até mesmo estado de humor graças à aparência.”
A moda no Brasil hoje é uma atividade cada vez mais lucrativa e profissional. Entre 1996 e 2001, sete bilhões de dólares foram investidos na modernização do parque industrial. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) compreende 30 mil empresas que geram mais de 1,5 milhão de empregos diretos e indiretos. O mercado global da moda gira cerca de 360 bilhões de dólares por ano e a ABIT tinha por meta exportar 4 bilhões de dólares até 2007.
Tenho uma amiga em São Paulo que tem dias filhas: a caçula estuda na FAAP e a mais velha estuda moda, na Faculdade Santa Marcelina. Outro dia ela me contava que, surpreendentemente, a que dava mais importância a marcas em geral é a caçula, que estuda na FAAP – faculdade freqüentada por uma elite de São Paulo, principalmente por garotas que classificamos como “Patricinhas”. Já a outra, que estuda moda, não liga para marcas: é super criativa nas produções e costuma comprar as roupas no bairro chamado Bom Retiro. “Antes de lançar uma coleção, faço pesquisas na internet e vou para os Estados Unidos, de onde trago muitas roupas para serem fotografadas quando volto. A partir disso, adapto tudo para a mulher brasileira, afinal, o que faz sucesso lá nem sempre agrada aqui, como cós alto”, revela Fabio Shoel, dono da marca Guelt”, localizada no bairro.
Enquanto isso, a outra da FAAP, só quer jeans da Diesel! Afinal, marca faz diferença entre as suas amigas.
“Vivemos obcecados por marcas porque, mais do que o produto em si, o que elas oferecem é estilo de vida” é o que diz a psicóloga e pesquisadora de moda Cristiane Mesquita. “Hoje em dia, as pessoas cultuam uma grife como se fosse uma crença …”
A relação entre moda, marcas e luxo é inevitável. Gilles Lipovetsky , 63, é um dos mais conhecidos pensadores atuais. Professor da Universidade de Grenoble, seu pensamento tem tido certa fecundidade não apenas no mundo acadêmico ou nos círculos filosóficos, mas também em outros universos, como o das artes, da educação, da psicologia, da política.e…do luxo.
Em entrevista a Revista Cult, sobre o seu interesse pelo universo do luxo, do ponto de vista filosófico, ele contou que “ Tenho uma formação de filósofo; estudei filosofia na Sorbonne e depois ensinei muitos anos a filosofia mais tradicional, quer dizer, a história da filosofia. Autores como Platão, Kant, Hegel etc. Meus interesses voltavam-se, sobretudo, para a compreensão da história e da vida social, ligados, provavelmente, à minha formação marxista. Meus interesses se fixavam na observação do mundo e suas transformações. Distanciei-me, porém, do marxismo, sobretudo no que dizia respeito à noção de alienação, pois toda cultura de massas era vista como algo alienado. Interessei-me, então, pelas questões que geralmente são desprezadas pelos filósofos. Platão, por exemplo, não gosta da caverna. Para ele, é necessário sair para contemplar a beleza das idéias eternas, inteligíveis. Ao contrário, eu me interesso mais pela caverna; pretendo iluminá-la, sem precisar sair dela. Foi assim que me interessei pelos objetos mais desprezíveis para a maioria dos filósofos, como a publicidade, o lazer, o consumo, a moda, a maquiagem. O luxo, então, foi uma continuidade de tudo isso. Mas não falo apenas segundo um interesse pessoal, porque a moda ou o luxo não me interessam senão ao espírito; parece-me que tudo isso exprime muitas coisas de nossa época, da cultura, da psicologia e da natureza de nossa sociedade.”
Ele acredita que a necessidade de “luxo” é algo intrínseco ao ser humano e que, portanto, sempre existiu, independentemente da riqueza material”…”A relação dos consumidores é cada vez mais uma relação emocional com as marcas que os fazem sonhar, e isso dá origem a um prazer muitas vezes tão intenso que parece durar para sempre”, afirma o filósofo em seu livro “ O Luxo Eterno – Da Idade do Sagrado ao Tempo das Marcas” . E conclui que o “Ícone máximo do luxo é comprar emoções, não produtos”.
Indagado, em excelente entrevista, quando visitou a Daslu no Brasil – não deixem de ler! – , se o luxo não seria supérfluo, ele respondeu: “O luxo não era supérfluo na escala da história. Em sociedades de outros tempos era uma questão de estrutura. O que acontece hoje é que não temos mais muitos sonhos. Por isso, o consumo para muitas pessoas funciona como um sonho, de beleza, de coisas de qualidade, de estética, de felicidade, de distanciamento. O homem é um consumidor, mas não é só isso. O homem não foi feito só para consumir, ele também foi feito para criar, para progredir, para melhorar. O consumo é muito bom, mas não pode preencher a vida. Se não há outro valor além do consumo, é muito triste. Não é supérfluo, é triste.”
Explicando ainda na entrevista para a Revista Cult, sobre a relação entre luxo e beleza, ela disse que ” Em algumas sociedades, alguns animais tinham valor especial, como os cães para os esquimós. …hoje ainda há produtos de luxo que não são necessariamente belos. Por exemplo, quando viajamos em primeira classe de avião: a decoração é a mesma que a da segunda classe ou da classe econômica. O que faz, então, o produto de luxo não é necessariamente a beleza, mas o bem-estar.”
Elyette Roux, co-autora do livro O Luxo Eterno, diz que “a clientela dos anos 1980 consumia marcas de luxo ‘custe o que custar’; a dos anos 1990 já não queria comprá-las ‘a qualquer preço’, mas a dos anos 2000 exigia que os produtos tivessem qualidade e preço acessível. Roux é professora do Instituto de Administração de Empresas de Aix-En-Provence, na França, e especialista em marketing e gestão de marcas de luxo. Ela confirma em seu livro as pesquisas que mostram um consumidor atual preocupado com o value for money, o famoso “valor agregado”, simbólico, afetivo e emocional. As pessoas gostam de identificar seus valores e aspirações nos produtos que compram – e não só: os querem acessíveis.”
“Tornar o inacessível acessível é um dos desafios que o mercado do luxo enfrenta. Sem deixar de lado, é claro, o prestígio e a magia do produto. “Em nossos dias, o setor constrói-se sistematicamente como um mercado hierarquizado, diferenciado, diversificado… daí, o luxo ‘estilhaçou-se’, não há mais um luxo, mas luxos, em vários graus, para públicos diversos. Por isso, ao menos ocasionalmente, o luxo aparece como um bem ao alcance de quase todos os bolsos”, afirma Lipovetsky.
Para ele, a roupa perderá, com o passar do tempo, sua herança adquirida na Idade Média, de transmitir visualmente a posição social do indivíduo para se tornar algo essencialmente prático. E acredita na presença dos tecidos inteligentes – esses que lidam com troca de calor, mantendo o corpo quente no frio e vice-versa, ou evitam a criação de bactérias – no futuro do sistema. Mas faz algumas ressalvas. “A reflexão fará a diferença em um mundo onde a tecnologia imperará em todos os âmbitos da sociedade.”
Finalmente, ele acredita que a criatividade, as idéias e o saber serão “artigos de luxo”(*). Este, aliás, um dos jargões preferidos do mundo fashion.
Luxo democrático, não? Afinal, criatividade, idéias e até o saber são acessíveis a todos. E não faltam ao brasileiro, principalmente criatividade e idéias.
E luxo democrático, leva à moda democrática! E não é o que estamos vendo, p.ex, nas lojas Renner, Mariza, C&A e até na Zara?
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Mais tarde, em casa, assim que encontrei minha filha (21 anos) contei rindo pra ela: – Sabe aquele “deslumbrante tomara que caia”, estampado e com babado na barra, que eu comprei por R$ 70,00 naquela loja que você descobriu na Visconde de Pirajá? Pois é, acharam que podia ser um Galliano. Acredita nisso? :)).
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(*) Na minha opinião, hoje, além de criatividade, idéias e o saber, o tempo é o luxo dos luxos, né não?
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Ícone máximo do luxo é comprar emoções, não produtos.
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